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OS DANÇARINOS
DERVIXES

O sufismo, desde o início da reforma
islâmica de Maomé, destacou-se como corrente não
ortodoxa que, além de aceitar o Alcorão, levava o
iniciado a obter poderes excepcionais através de
práticas e exercícios espirituais. Os sufistas,
tidos como heréticos nos meios ortodoxos,
insistiram sempre na possibilidade da descoberta e
da comunhão com Deus por seu próprio esforço.
Muitos dos adeptos dessa corrente foram
inicialmente ascetas e eremitas que se colocavam à
margem da sociedade. Tais indivíduos, com o passar
do tempo, começaram a se agrupar em mosteiros,
onde levavam uma existência de estudo e meditação,
combinando afazeres da vida cotidiana com as
práticas religiosas.
Por volta do século XII, tais fraternidades
religiosas muçulmanas já eram verdadeiras
corporações organizadas. Tinham estabelecido graus
de iniciação e uma estrita disciplina existencial
era observada pelos membros, chamados
dervixes.
A ordem sufista Mevlevi, fundada por
Jalaluddin Rumi, na primeira metade do século
XIII, na cidade turca de Konya, tornou-se
rapidamente uma das mais importantes fraternidades
dervixes. Essa ordem é famosa até hoje por incluir
no seu ritual a Dança do Sema. Essa dança,
de rodopios embriagantes, procurava colocar os
iniciados em harmonia com o movimento dos astros,
induzindo-os, dessa forma, a um estado de êxtase
místico [foto de fundo]. Além da prática do Sema,
a ordem Mevlevi distinguia-se pela leitura do
Mathnavi, vigorosa obra poética religiosa de
autoria de Jalaluddin Rumi, que desempenhava
importante papel em vários estágios do
ritual.
Os árabes, grandes astrônomos e astrólogos,
procuravam decifrar na progressão astral o destino
dos homens. Identificando a dança ao movimento dos
astros, é natural que buscassem a verdade também
nos rodopios ininterruptos. O movimento circular
certamente era - e é - uma ajuda incalculável para
a consumação da embriaguez mística. Os mevlevis
acreditavam que não era contemplando, mas sim
participando do rodopio dos céus, que o dervixe
atingia a sua mais completa união com a
divindade.
SEMA: O ÊXTASE DO
MOVIMENTO

O jejum, ou uma forma especial de
alimentação, era prática comum nos dias que
precediam a execução do Sema. Aos maometanos
sempre foi proibido o uso de bebidas alcóolicas,
mas os grandes nerguilés ainda hoje expostos no
Museu Mevlana, em Konya, atestam que o forte
tabaco turco, ou mesmo o haxixe e o ópio, eram
largamente difundidos entre os
dervixes.
A cerimônia do Sema é caracterizada por um
crescendo rítmico. O recitativo inicial,
acompanhado de solo improvisado de flauta de cana
(ney) dá lugar à parte instrumental, no
ciclo rítmico de 28/4. O ritmo compulsivo dos
kudum (pequenos tambores de cobre) impele
os pés dos dervixes ao movimento. O primeiro
movimento propriamente dito (selam) é em
8/4 e o segundo em 9/4. O terceiro movimento
adquire maior ligeireza e o dervixe chefe une-se
aos rodopios dos demais.
No Sema, cada som é a manifestação de um
poder. Cada instrumento está ligado a um elemento
natural: flauta, ar; tambor, terra; etc. A correta
escolha dos instrumentos leva o iniciado da terra
aos céus, do corpo físico ao infinito. O movimento
giratório não é, em sua projeção mental, o
estabelecimento de círculos concêntricos. É,
antes, uma espiral a ser percorrida pelo dervixe,
que o irá lançar-se frente a frente com o
infinito. O momento mais dramático da cerimônia é,
provavelmente, durante o 6/8 final (yuruk
semai), quando todos os dervixes rodopiam
freneticamente. A música cessa, mas os dervixes,
em seu estado de êxtase, continuam as voltas
silenciosas. Atualmente, quando esse ritual é
recomposto por um grupo de danças folclóricas da
turquia, uma flauta solitária lentamente começa a
trazer os dançarinos mais sensíveis de volta à
realidade.
Nos tempos áureos das atividades dos
dervixes, a execução do Sema costumava deixá-los
por muitas horas e até muitos dias no recolhimento
dos rodopios. Pouco a pouco voltavam por si sós;
para eles, que tinham sido iluminados e conheciam
o que não é dado a qualquer um conhecer, era
expresso o dever da volta, a fim de que pudessem
orientar e auxiliar o povo.
Essa dança mística, freqüentemente admirada
por visitantes ocidentais nos tempos do antigo
Império Otomano, era um dos aspectos mais
fascinantes da ordem Mevlevi - ordem que, através
dos séculos, exerceu enorme influência na evolução
da cultura turca, principalmente no campo das
artes, como a caligrafia, música e poesia. As
raízes do Sema encontram-se nos primórdios da vida
sufista e, basicamente, chegam às profundidades da
religião humana. A dança, para o dançarino, é uma
experiência física e não puramente estética. As
vibrações neuromusculares produzidas pela dança
levam a vários estágios de auto-intoxicação e
fazem com que seus efeitos sejam semelhantes aos
resultados fisiológicos do prazer. Mas o homem
ocidental geralmente não percebe intuitivamente
nem o significado e nem o peso do prazer
religioso. Em muitas culturas primitivas e mesmo
em níveis médios de civilização, os prazeres
físicos contêm freqüentemente significado
religioso. De particular interesse é a crença
primitiva que dançar até a incosnciência faz do
corpo humano o abrigo ideal para um deus, como é o
caso do vodu.
O êxtase religioso tem, como uma das suas
características, a capacidade de obter um estado
de afinamento com os ritmos, movimentos,
"respirações" ou "ver" Deus. Diversamente do iogue
que, por intermédio de práticas respiratórias e
meditativas, atinge um nível de consciência
superior que o capacita a harmonizar-se com a
energia vital em estado não-manifestado, o
dervixe, por intermédio da excitação emocional, da
poesia e, finalmente, pelos repetitivos movimentos
giratórios do Sema, entra em comunhão com o
universo. O ritual dos dervixes dançarinos é visto
por eles mesmos como "uma determinação metafísica
do movimento das esferas".
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